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Terça-feira, 13 de Outubro de 2026
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Livro “A Locomotiva Nazista” revisita a história da Madeira-Mamoré e traz à luz personagens, documentos e memórias esquecidas de Rondônia

Entre elas estão Reina Buzaglo e Isaac León Benchimol, judeus marroquinos sepultados na Candelária, cujas lápides conservam inscrições hebraicas.

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Por Se Liga PVH
Livro “A Locomotiva Nazista” revisita a história da Madeira-Mamoré e traz à luz personagens, documentos e memórias esquecidas de Rondônia
Imagem: News Rondônia
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Obra do arqueólogo e historiador José Ricardo P. Tavares investiga locomotivas alemãs fabricadas em 1936, no decorrer de o regime de Adolf Hitler, e amplia o debate para a formação de Porto Velho, povos que participaram da Madeira-Mamoré e a preservação do patrimônio histórico amazônico

PORTO VELHO (RO), uma locomotiva preservada como símbolo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tornou-se o ponto de partida para uma investigação que atravessa arquivos, cemitérios, ruínas, relações diplomáticas, comunidades de imigrantes e episódios pouco conhecidos da formação histórica de Rondônia. É essa viagem que o arqueólogo e historiador José Ricardo P. Tavares apresenta em “A Locomotiva Nazista: Poder, povos e apagamentos na história da Madeira-Mamoré” , nova obra dedicada a revisitar algumas das narrativas mais conhecidas e ainda alguns dos grandes silêncios da história regional.

Prefaciado pela historiadora Dra. Nilza Menezes L. Lagos, o livro parte das locomotivas Schwartzkopff fabricadas em 1936, na Alemanha governada por Adolf Hitler, que posteriormente receberam os números 17, 18 e 19 na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Antes de chegarem a Rondônia, as máquinas integraram a Rede de Viação Paraná–Santa Catarina, sendo posteriormente transferidas para a ferrovia amazônica. A locomotiva nº 18 tornou-se a mais conhecida em Porto Velho; a nº 17 permaneceu em Guajará-Mirim; e a nº 19 acabou associada ao chamado “cemitério das locomotivas” , nas proximidades da Candelária.

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É justamente nesse ponto que o título provocativo da obra encontra sua explicação. O autor investiga historicamente em que sentido essas máquinas podem ser chamadas de “locomotivas nazistas” e analisa a conhecida memória popular segundo a qual teriam sido um “presente de Hitler a Vargas” . Em vez de simplesmente confirmar ou rejeitar a expressão, Tavares procura separar aquilo que está documentalmente comprovado daquilo que ainda permanece no terreno das hipóteses.

A pesquisa sustenta que as locomotivas foram produzidas no contexto econômico da Alemanha nazista e chegaram ao sistema ferroviário brasileiro no decorrer de um período de intensa aproximação comercial entre o governo de Getúlio Vargas e o Terceiro Reich. Ao mesmo tempo, o próprio livro reconhece um limite relevante, até o momento, não foi localizado documento que identifique Adolf Hitler como doador pessoal das máquinas ou Getúlio Vargas como destinatário particular de uma doação. A modalidade financeira e jurídica exata pela qual os equipamentos foram adquiridos permanece como questão aberta à pesquisa.

Essa preocupação em distinguir documento, contexto, memória e hipótese conduz toda a investigação. O livro relaciona a fabricação das locomotivas ao comércio compensado entre Brasil e Alemanha, à política econômica da Era Vargas e a um cenário internacional de radicalização política. Também aborda a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista em 1936, ressaltando, contudo, que não foi encontrado documento que permita afirmar que as locomotivas tenham sido entregues como pagamento ou recompensa por sua deportação. O autor insiste que acontecimentos simultâneos devem ser analisados dentro de uma mesma conjuntura política sem que simultaneidade seja automaticamente transformada em causalidade.

Mas o livro rapidamente deixa claro que não é apenas uma obra sobre locomotivas. Ao seguir os trilhos da Madeira-Mamoré, José Ricardo P. Tavares recupera histórias de judeus, sírio-libaneses, indígenas, chineses, japoneses, pomeranos, gregos, caribenhos e outros grupos que participaram da construção econômica, social e cultural da região. A ferrovia aparece não somente como empreendimento de engenharia, porém como espaço de encontros, desigualdades, doenças, migrações, conflitos e convivências entre pessoas de diferentes partes do mundo.

Um dos núcleos mais marcantes da obra é o Complexo Hospitalar e o Cemitério da Candelária. A partir da arqueologia e da documentação histórica, o autor examina o hospital que atendeu trabalhadores da ferrovia e transforma o antigo cemitério em uma espécie de arquivo material da formação de Porto Velho. Lápides, epitáfios e processos históricos devolvem nomes e trajetórias a pessoas que poderiam ter desaparecido da memória regional.

Entre elas estão Reina Buzaglo e Isaac León Benchimol, judeus marroquinos sepultados na Candelária, cujas lápides conservam inscrições hebraicas. A investigação dessas sepulturas permite demonstrar que a presença judaica na região não foi episódio isolado ou simples curiosidade, porém parte das redes econômicas, familiares e religiosas que ligavam Porto Velho, Santo Antônio, Guajará-Mirim, Manaus e Belém.

No prefácio, Nilza Menezes ressalta justamente essa capacidade do trabalho de recolocar no centro da narrativa histórica pessoas que no decorrer de décadas apareceram apenas nas margens. Para a historiadora, a obra recupera a participação de judeus, árabes, gregos, indígenas, chineses, japoneses e outros povos na formação social ligada à Madeira-Mamoré, questionando o tratamento dessas presenças como simples curiosidades dentro da história regional.

A arqueologia ocupa espaço relevante na publicação. O autor registra as pesquisas realizadas no antigo Hospital da Candelária pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e acompanha a continuidade das escavações. Os trabalhos arqueológicos identificaram vestígios relacionados a diferentes períodos de ocupação do sítio, incluindo materiais ligados à ferrovia, ao antigo complexo hospitalar, ao Educandário Belisário Pena e evidências de presença indígena ainda dependentes de datação conclusiva.

O percurso chega ainda a Guajará-Mirim, à convivência entre famílias judaicas e sírio-libanesas, às populações indígenas que ocupavam a região antes dos trilhos, à presença japonesa e chinesa, aos pomeranos em Rondônia e à história de Lydia Xavier, cuja morte permanece cercada por versões e interrogações.

Outro ponto do livro é uma mudança deliberada de perspectiva sobre o patrimônio ferroviário. Ao lado das famosas Schwartzkopff alemãs, Tavares chama atenção para locomotivas mais antigas, especialmente a Coronel Church, a Princesa Leopoldina e as Baldwin, defendendo que a história da Madeira-Mamoré não pode ser reduzida às máquinas que hoje possuem maior visibilidade pública.

A discussão chega diretamente ao presente. O autor propõe recuperar locomotivas históricas, criar estruturas adequadas de conservação, exposições cronológicas e iniciativas capazes de transformar o patrimônio ferroviário em instrumento de educação, memória e turismo. Para ele, Porto Velho não precisa inventar atrações históricas, pois possui um patrimônio que atravessou mais de um século e que ainda pode ser reintegrado à vida da cidade.

Nesse sentido, “A Locomotiva Nazista” transforma a máquina que dá nome ao livro em fio condutor de uma história muito maior. O trem leva o leitor da Alemanha dos anos 1930 às margens do Madeira; de Getúlio Vargas aos trabalhadores anônimos da ferrovia; das relações internacionais às lápides esquecidas na floresta; dos grandes projetos de engenharia às pequenas peças encontradas em escavações arqueológicas.

Mais do que perguntar de onde vieram determinadas locomotivas, a obra questiona quem foi lembrado, quem foi esquecido e quais escolhas determinaram aquilo que hoje reconhecemos como a história oficial da Madeira-Mamoré.

Com 400 páginas, publicado pela Arqueoamazon, o livro reúne pesquisa histórica, arqueologia, fotografias, documentos, cronologia, matriz de evidências e roteiro para futuras pesquisas em arquivos. A primeira edição é publicada em Porto Velho em 2026 e possui o ISBN 979-8-19150-399-8.

“A Locomotiva Nazista: Poder, povos e apagamentos na história da Madeira-Mamoré” chega ao público como um convite para olhar novamente para os trilhos que ajudaram a formar Porto Velho — desta vez não apenas para enxergar as máquinas, porém sobretudo as pessoas, os conflitos, os encontros e as memórias que viajaram com elas.

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Fonte: News Rondônia

FONTE/CRÉDITOS: News Rondônia — https://newsrondonia.com.br/noticias/2026/08/13/livro-a-locomotiva-nazista-revisita-a-historia-da-madeira-mamore-e-traz-a-luz-personagens-documentos-e-memorias-esquecidas-de-rondonia/
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