Porto Velho (RO), 17 de setembro de 2025 – Muito já se debate sobre os elevados índices de produtividade agrícola, as exportações recordes e o protagonismo do Brasil como grande fornecedor mundial de alimentos. Entretanto, há uma oportunidade estratégica menos visível — porém com potencial transformador — que pode reposicionar o país no cenário global: a bioeconomia, especialmente a conversão de resíduos agroindustriais em ativos de valor.
Subprodutos que viram ativos
Segundo José Carlos de Lima Júnior, cofundador e professor da Harven Agribusiness School, resíduos como palha, vinhaça, esterco, bagaço, cascas e restos de colheita — que muitas vezes são tratados apenas como subproduto ou passivo ambiental — têm capacidade para gerar uma gama de novos produtos:
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Biofertilizantes, diminuindo a dependência de fertilizantes importados, cujos preços internacionais têm oscilado fortemente desde a pandemia e com a guerra na Ucrânia.
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Energia renovável, através da produção de biogás e biometano;
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Insumos para proteína animal, como alimentos para animais produzidos a partir de resíduos;
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Biomateriais (como bioplásticos, isolantes, materiais de construção sustentáveis);
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Créditos de carbono para agricultores e empresas que adotem práticas que removam ou reduzam emissões.
Por que o momento é este
Há múltiplos fatores que tornam esse cenário especialmente favorável agora:
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Pressões internacionais ambientais — Normas de emissão de gases de efeito estufa, cadeias mais rigorosas de carbono (“carbon border adjustment mechanisms”) e exigências de sustentabilidade por compradores externos têm estimulado mercados europeus e asiáticos a preferirem produtos de baixo carbono ou com rastreabilidade.
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Volatilidade dos insumos importados — Fertilizantes, maquinários e combustíveis fósseis tiveram variações fortes de preço nos últimos anos, elevando os custos de produção. Desenvolver insumos locais ou renováveis permite reduzir essa vulnerabilidade.
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Demanda crescente por produtos sustentáveis — Consumidores globais, investidores (fundos ESG) e governos estão dispostos a pagar mais por produtos com certificações verdes ou com menor impacto ambiental.
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Potencial tecnológico e científico — Universidades, institutos de pesquisa e startups brasileiras têm avançado nos estudos de aproveitamento de biomassa, técnicas de fermentação, digestão anaeróbia e melhoramento genético de culturas para otimizar rendimento de resíduos.
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Políticas públicas em discussão — Há projetos de lei e incentivos fiscais em tramitação que visam estimular bioeconomia, biocombustíveis de segunda geração, créditos de carbono, e uso sustentável do solo.
Recursos que o Brasil já oferece
O artigo lembra, corretamente, que o Brasil reúne três vantagens fundamentais:
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Escala — tamanho continental, disponibilidade de terras e clima diversificado, permitindo cultivo de variadas espécies e safras ao longo do ano.
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Conhecimento técnico — a engenharia agronômica, pesquisa aplicada (EMBRAPA, universidades federais etc.), e empresas de tecnologia agrícola já bem estabelecidas.
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Diversidade produtiva — agricultura, pecuária, biotecnologia, extração vegetal, agroindústria, etc., tudo isso cria uma matriz variada que facilita o aproveitamento dos resíduos de diversos setores.
Desafios que precisam ser superados
Para que essa vantagem silenciosa se torne visível e duradoura, é necessário ultrapassar entraves:
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Investimento em infraestrutura de coleta, logística, transporte e processamento de resíduos. Muitas regiões produtoras ainda não têm estrutura adequada para escoar ou tratar resíduos.
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Políticas fiscais e regulatórias claras, estáveis e incentivos para a bioeconomia, inclusive para produtores menores, cooperativas, comunidades indígenas e tradicionais.
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Transferência de tecnologia e capacitação técnica, para que os agricultores aprendam a lidar com novos modelos de produção.
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Mercados bem definidos e confiáveis para os novos produtos (certificação, legislação, acordos internacionais).
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Proteção ambiental e social, para que a bioeconomia não venha acompanhada de desmatamento ou exploração excessiva de recursos naturais.
Caminhos já em curso
Alguns exemplos recentes mostram que há movimentação nessa direção:
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Projetos-piloto de biodigestores em fazendas no Mato Grosso e na região Sul, convertendo resíduos de suínos e bovinos em biogás para uso local ou venda.
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Iniciativas de cooperativas no Nordeste que estão produzindo biofertilizantes a partir de resíduos da mandioca e da cana.
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Empresas nacionais investindo em bioplásticos ou embalagens compostáveis, com incentivos de incubadoras e editais de fomento.
Cenário internacional e projeções
Especialistas estimam que o mercado global de bioeconomia poderá ultrapassar alguns trilhões de dólares nas próximas décadas. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade não apenas de aumentar valor agregado da produção, mas de ganhar espaço em cadeias globais, reduzir importações e gerar emprego verde nas zonas rurais.
Conclusão
A grande interrogação levantada pelo professor José Carlos de Lima Júnior continua: vamos esperar que as pressões externas nos empurrem a avançar ou vamos liderar a transformação desde já? Se o Brasil adotar políticas proativas e incentivar sua cadeia produtiva a monetizar o “invisível” — resíduos e subprodutos — há uma especial vantagem silenciosa, mas poderosa, prestes a se tornar visível.

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