A candidata ao Senado Neidinha Suruí (PSB) participou, nesta sexta-feira (11), do debate NC Eleições 2026, realizado pela TV Norte Rondônia e transmitido ao vivo pelo SBT. Durante os blocos, apresentou propostas voltadas principalmente ao desenvolvimento sustentável, infraestrutura, educação, saúde, cultura e geração de renda, além de defender a presença das mulheres na política.
Ao longo do debate, Neidinha procurou apresentar suas posições sem entrar na polarização entre os demais candidatos e afirmou que pretende levar ao Senado demandas de diferentes regiões e comunidades de Rondônia. Entre os temas abordados por ela estiveram as condições de infraestrutura e acesso a serviços públicos em territórios indígenas, unidades de conservação, reservas extrativistas, assentamentos rurais, comunidades ribeirinhas e periferias urbanas.
No primeiro bloco, sobre infraestrutura, desenvolvimento e integração de Rondônia, Neidinha questionou quais são as prioridades para regiões que ficam fora dos grandes centros. Na resposta, defendeu que investimentos em saneamento básico não sejam concentrados apenas nas cidades e alcancem ainda o campo, assentamentos rurais, terras indígenas e reservas extrativistas. Falou sobre a infraestrutura para o cotidiano das pessoas, com água em casa todos os dias e esgoto tratado. Rondônia paga um preço alto por sua rede de esgoto tratado chegar a menos de 10% da população.
Ao ser questionada pela candidata ao Senado do PT sobre a relação da bancada federal de Rondônia com o governo federal e obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), entre elas a construção da Ponte Binacional de Guajará-Mirim, defendeu a importância do diálogo dos parlamentares, representantes do povo, com o governo federal, independentemente de quem esteja na Presidência da República.
“Eu acho uma vergonha, tem que trocar essa bancada federal. Uma bancada que é eleita para representar Rondônia e o povo de Rondônia. E está lá sem conversar com o presidente eleito? Não me importa quem foi o eleito. Quem é eleito para representar Rondônia tem que conversar com o presidente”, ressaltou Neidinha.
Ela ainda aproveitou o momento para defender maior presença feminina no Senado, que em seus 43 anos de atuação teve apenas uma mulher eleita, além de destacar uma necessária mudança na representação política do estado.
Saúde como prioridade
No segundo bloco, dedicado à saúde, Neidinha foi questionada por Fernando Máximo, candidato do PL, sobre emendas parlamentares para a saúde pública. Ela ressaltou as dificuldades enfrentadas pelos moradores de terras indígenas, quilombos, comunidades ribeirinhas e periferias urbanas, citando o Residencial Orgulho do Madeira, em Porto Velho, como usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), locais onde o dinheiro prometido por emendas parece não chegar.
Apresentou a base de seu Plano Rondônia de Saúde Tradicional e Intercultural, com propostas para redução das filas de atendimento, melhorias na saúde da mulher e políticas voltadas à saúde mental, infantil e de adolescentes. Destacou a saúde tradicional, com atenção diferenciada para comunidades indígenas, considerando sua cultura e formas próprias de cuidado.
Durante a tréplica, Neidinha questionou o ex-secretário de Estado da Saúde e atual integrante da Comissão de Saúde Federal, sobre a situação da saúde nos territórios indígenas e em outras comunidades que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços públicos.
“Quero perguntar ao senhor que ficou esse tempo todo lá representando o povo de Rondônia, por que nas terras indígenas não têm atendimento à saúde? Os médicos não vão lá e os indígenas ficam à mercê, assim como os quilombolas e o pessoal do assentamento. Já que estava no Governo há tanto tempo, por que não melhorou a saúde desse pessoal? Por que não melhorou o João Paulo II? Porque é muito mais fácil ficar fazendo discurso do que trazer dinheiro”.
Em outra rodada, desta vez com o candidato do PSD, Neidinha retornou a abordar a saúde e citou a necessidade de políticas específicas para mulheres, saúde mental, crianças e adolescentes, além da chamada saúde tradicional e intercultural para os povos indígenas e comunidades tradicionais em distintos territórios.
Mulheres e participação política
No terceiro bloco, que tratou de educação, segurança pública, emprego e renda, Neidinha abordou a violência contra as mulheres e criticou ataques direcionados a candidatas no decorrer de a campanha eleitoral. Em uma rodada com a candidata ao Senado pelo PP, discutiram a necessidade de ampliar políticas de enfrentamento à violência contra a mulher.
Neidinha comentou, então, do projeto “Mulher Protegida Rondônia”, sua proposta de política pública permanente de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres. Na réplica, defendeu maior participação feminina nos espaços de decisão.
“Precisamos ser respeitadas. Nós, mulheres, somos maioria como eleitoras. Está na hora de tirar esses homens que não nos respeitam, que nos atacam e nos ameaçam, eles não vão fazer nada por nós”.
Neidinha está na disputa eleitoral depois de ter denunciado o partido por violência política de gênero. Sua candidatura havia sido cancelada pela direção do partido em função dos arranjos políticos locais e nacionais. Devido à denúncia e ampla mobilização, o partido retornou atrás, bem como a Justiça Eleitoral reconheceu a legitimidade de sua candidatura.
Desenvolvimento sustentável e geração de renda
Ainda no terceiro bloco, ao ser questionada sobre quais cadeias econômicas podem crescer em Rondônia conciliando desenvolvimento e sustentabilidade, Neidinha citou experiências ligadas à sociobioeconomia, à cultura e ao turismo em territórios indígenas.
Ela mencionou um projeto de turismo desenvolvido na Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, como exemplo de iniciativa que pode gerar emprego e renda para as comunidades. Para Neidinha, o turismo ainda movimenta outros setores da economia.
“O turista chega aqui, ele gera recursos desde a passagem de avião, táxi, hotéis em retorna. A gente deixa Rondônia lá fora bonita”.
A candidata ainda ressaltou a cultura como parte de sua agenda e afirmou ter assumido compromissos com o setor por meio do Pacto Cultural.
“Nunca fui política, porém já fiz muito por essa Rondônia. Faço muito por Rondônia, inclusive pela minha cidade, o povo da periferia e da cultura”.
Historiadora, mestra e doutora em Geografia, Neidinha Suruí há mais de três décadas está à frente de projetos que representam milhares de dólares em exportações de produtos e serviços rondonienses. Projetos comunitários, cooperativados, culturais desde a base social. Um deles é o Café Robusta, produzido pelo povo Paiter Suruí, que colocou Rondônia no topo mundial da produção de cafés de qualidade.
Educação, pesquisa e cultura
Nas considerações finais, Neidinha afirmou que pretende trabalhar para tirar Rondônia do atraso político e ressaltou a importância de buscar investimentos para a educação, tecnologia, pesquisa, cultura, meio ambiente e economia.
Na educação, defendeu investimentos em tecnologia e recursos para institutos e universidades federais, além do incentivo à pesquisa. Também reforçou que pretende levar ao Senado pautas relacionadas às comunidades indígenas, tradicionais e periféricas.
Ao longo do debate, a candidata apresentou sua trajetória de atuação fora dos mandatos eletivos. Historiadora, indigenista, empreendedora e ativista ambiental, Neidinha Suruí é referência nacional e internacional na defesa e visibilidade dos povos indígenas e da Amazônia. Fundadora e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização que atua há quatro décadas na defesa dos direitos humanos e em ações socioambientais em Rondônia, é chamada no sul do país de “a guardiã da floresta”. Em 2024, ganhou o maior e mais prestigiado prêmio da televisão mundial, o Emmy, contando sobre a resistência e luta do povo indígena Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia.

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